Os vizinhos não tinham dúvidas de que Henry Darger era um homem estranho. Discreto, metido consigo, este guarda de um hospital ia de casa para o emprego, em Chicago, e só saía novamente para ir à missa - o que chegava a fazer cinco vezes por dia. Mas o que era realmente estranho era o facto de ele apanhar lixo na rua e levá-lo para casa.
No entanto, nada disto fazia adivinhar o que se passava dentro do quarto alugado em que Darger vivia há 31 anos, no número 851 da Webster Avenue. E sobretudo o que se passava dentro da sua cabeça.
Quando Darger, já com dificuldade em subir as escadas, teve que ir para um asilo, o fotógrafo e designer Nathan Lerner, que era seu senhorio e de certa forma protector (manteve-lhe a renda baixa e até lhe organizou uma festa de anos, conta John Macgregor na biografia que escreveu de Darger), fez uma descoberta extraordinária.
No quarto de Darger, por entre caixas de tintas, e de lápis de cores, e pilhas de revistas, estava uma obra de dimensão esmagadora: só um dos livros, intitulado The Story of the Vivian Girls, in What is Known as the Realms of the Unreal, of the Glandeco-Angelinian War Storm Caused by the Child Slave Rebellion, tinha 15.145 páginas. É considerada a mais longa obra de ficção alguma vez escrita.
Darger é hoje visto como um dos mais desconcertantes artistas no campo da Outsider Art ou Arte Bruta - uma das mais importantes colecções nesta área foi iniciada pelo pintor e escultor Jean Dubuffet e está actualmente reunida no museu Colecção de Arte Bruta de Lausanne, Suíça.
Para além do que ficou conhecido como Realms of the Unreal, no quarto de Darger foi também encontrado uma sequela com oito mil páginas, uma autobiografia, vários diários e um registo exaustivo das condições meteorológicas diárias ao longo de dez anos.
O clima era uma obsessão para Darger. Nathaniel Rich conta num texto publicado na revista norte-americana The New Republic que, quando alguém o encontrava na rua e o abordava, ele não respondia directamente, em vez disso começava a falar do tempo e em particular de tempestades e tornados. A sua vida parece, aliás, ter sido profundamente marcada por um tornado a que terá assistido.
A história é contada pelo próprio nas suas memórias. O livro, The History of My Life, tem cerca de cinco mil páginas e começa por descrever a sua infância. Darger (1892-1973) nasceu em Chicago. A mãe morre quando ele tem quatro anos, a irmã recém-nascida é dada para adopção e ele nunca chega a conhecê-la. Passa a infância com o pai, mas quando a saúde deste se deteriora, Darger é levado primeiro para uma instituição católica para rapazes e, depois, para um asilo para "crianças com a cabeça fraca", onde terá sofrido castigos violentos.
A guerra das Vivian Girls
Depois de várias tentativas falhadas, consegue fugir em 1908 e, ao caminhar a pé de volta a Chicago, assiste ao fenómeno que o marca profundamente: um enorme tornado, que deixa devastada uma parte da zona de Illinois. A descrição da história da sua vida é interrompida na página 206 e a partir daí as 4878 páginas seguintes são dedicadas à descrição do tornado e dos seus efeitos.
O quarto onde Darger viveu foi cuidadosamente reconstituído no Intuit: Center for Intuitive and Outsider Art, em Chicago - móveis de madeira cheios de papéis, imagens da Sagrada Família na parede, uma lareira, mais imagens religiosas, retratos de crianças. A infância era outra das suas grandes obsessões. Foi por isso que criou a longuíssima história - em texto e em três volumes com centenas de aguarelas, rolos e rolos de desenhos, encontrados também no seu quarto - das Vivian Girls e a sua guerra contra os bárbaros da Glandelinia.
A história dos Realms of the Unreal passa-se num planeta muito maior do que a Terra e do qual esta é uma lua. A guerra opõe a nação cristã da Abbiennia às forças bárbaras da Glandelinia, que massacram povos inteiros e condenam as crianças à escravidão. As heroínas são as sete louras Vivian Girls, filhas do imperador da Abbiennia, e que ao longo de milhares de páginas enfrentam as forças do mal numa guerra apocalíptica.
As imagens que Darger usa são geralmente de crianças angelicais, recortadas de revistas e ampliadas (gastava parte considerável do seu pequeno ordenado a fazer ampliações). Entre estes rostos de crianças havia um que o fascinava mais do que todos: o de Elsie Paroubek, uma menina de cinco anos assassinada em 1911, e cuja foto apareceu no jornal. Darger recortou-a e guardou-a até que um dia a perdeu - segundo dizia, tinha-lhe sido roubada do armario no trabalho.
Quando já estava no lar, disseram-lhe que todo o seu universo secreto tinha sido descoberto. Ele respondeu apenas: "Agora é demasiado tarde."
Eu só não entendo porque as Vivian Girls tem pênis no lugar de vaginas.